Como é a atual cobertura de vacinação no Brasil e quais as medidas de imunização que podem contribuir para uma política nacional de saúde eficaz? Onde buscar informações corretas sobre vacinação e quais as práticas que devem ser tomadas para reverter a gradual queda de cobertura de vacinação no Brasil? Estes são alguns dos tema da nossa entrevista com Mayra Moura. Mayra é Enfermeira, Mestre em Tecnologia de Imunobiológicos por Bio-Manguinhos/Fiocruz e atua na área de imunizações desde 2007. Já foi responsável por uma rede de clínicas de vacinação, coordenou o curso de capacitação em imunização EAD realizado pela SBIm em Parceria com o PNI e viaja o Brasil fazendo capacitações para profissionais que atuam na sala de vacinação do setor público e privado. É atualmente coordenadora de Farmacovigilância do Instituto Butantan, Diretora da Sociedade Brasileira de Imunização (SBIm) e Diretora da empresa CapacitaImune. Para acompanhar mais sobre o seu trabalho, siga-a no Instagram: @capacitaimune.
Qual é o atual estado das coberturas de vacinação no Brasil?
As coberturas do país vêm caindo um pouco a cada ano. Isso se deve a vários fatores como:
– A não valorização da doença e medo de possíveis eventos adversos: uma vez que muitas doenças sumiram graças a eficácia do Programa Nacional de Imunização e à qualidade das vacinas utilizadas. Muitos médicos novos nunca viram uma criança com sarampo, poliomielite, difteria neonatal. Assim, o medo das pessoas passam a estar relacionados possíveis eventos adversos graves, que são raríssimos, mas como a eminência da pessoa não ter doença é pequena a chance de um evento raro (<1%) acontecer passa a assustar mais;
– O horário de funcionamento dos postos de saúde: Hoje os postos de saúde funcionam de segunda à sexta, de 8 às 17h. Algumas vacinas, como a que protege contra o sarampo, por exemplo (vacina tríplice viral) é multidose, onde um frasco rende 10 doses e precisa ser reconstituída, após aberta tem duração de 6 horas, então uma unidade básica de saúde (UBS) não vai abrir um frasco às 16:00 sendo que terá que descartar o restante das doses às 17:00. Esses entraves acabam dificultando o acesso o público a UBS, que é o maior público do Brasil. Importante lembrar que a mãe ainda é a maior responsável em las crianças para se vacinarem e elas trabalham, então esse horário dificulta bastante o acesso. Pensando nisso, o Ministério da Saúde já está avaliando a possibilidade de fazer 3 turnos nas UBS, mas para isso é necessário recurso financeiro e humano.
– Campanhas antivacinismo: É um movimento que existe no Brasil, mas ainda é muito pequeno perto do que existe na Europa e nos Estados Unidos. O movimento anti vacina não é algo novo. Desde Jenner, o inventor da vacina contra varíola, já existia movimentos contra. Naquela época, as pessoas diziam que quem fosse vacinado com a vacina de varíola iria se tornar uma vaca ou ter partes dela, como orelha, rabo. Isso tudo porque Jenner fez a vacina de varíola partindo de um vírus da mesma família que infectava as vacas, mas não era suficiente para produzir a doença, apenas criar imunidade. Depois disso, outras situações aconteceram, mas nunca ganharam força porque antigamente era difícil disseminar a informação. O movimento anti-vacina ganhou força quando um médico, Wakefield, que em 1998 publicou um artigo em uma renovada revista científica, a Lancet, relacionando a vacina contra sarampo e o autismo. Mais tarde descobriram que na verdade ele tinha sido contrato pelo advogado que representava 12 famílias com filhos autistas, para forjar os resultados e conseguir que as famílias fossem reembolsadas pelo laboratório. O Lancet se retratou, retirou o artigo do ar e depois disso vários estudos foram conduzidos provando que a vacina nada tem a ver com o desenvolvimento do autismo. Mas infelizmente essa fake news se espalhou na Europa e as coberturas caíram drasticamente. Desde então a Europa vive surtos de sarampo e nos últimos anos só piora.
– Falta de informações corretas sobre vacinas: O Ministério da Saúde criou um número de whatsapp (61) 99289-4640 para avaliar notícias sobre vacinas e confirmar se é fake news ou é verdadeira. A OMS também vem em um movimento de criar uma rede segura de informações (https://www.vaccinesafetynet.org/), elecando sites pelo mundo todo onde as informações de vacinação são seguras, no Brasil existem dois sites pertencentes a rede: www.sbim.org.br e o www.familia.sbim.org.br que é um site mais direcionado para público leigo. Estamos em um movimento de produzir notícia correta para confrontar com as fake news, entendemos que somente levando informação e populando as redes sociais com informações corretas que conseguiremos enfrentar esses grupos.
As coberturas no Brasil vem baixando mas ainda são altíssimas quando comparadas a europeia, por exemplo. O Problema é que para doenças como sarampo, que disseminam muito rapidamente, precisamos ter altas coberturas para impedir a circulação do Vírus.
Segundo o site do pni http://pni.datasus.gov.br/inf_estatistica_cobertura.asp, atualizado em :18/04/2019, a cobertura para sarampo no Brasil é:
TOTAL | 2010 | 2011 | 2012 | 2013 | 2014 | 2015 | 2016 | 2017 | 2018 |
021 Tríplice Viral D1 | 99,93 | 102,39 | 99,5 | 107,46 | 112,8 | 96,07 | 95,41 | 90,63 | 90,32 |
Mas a meta para a vacina tríplice viral é 95%. Abaixo disso não conseguimos controlar a doença. Vale lembrar que esses são dados nacionais, onde misturam-se regiões que possuem dados bons com regiões com dados ruins. Em Roraima e Amazonas o que aconteceu foi isso, as coberturas estavam abaixo da meta, ou seja, com população susceptível. Enquanto não tínhamos o vírus circulando no país as pessoas não vacinadas não tinham a doença, mas foi entrar o vírus que logo uma grande população se infectou. Hoje a cobertura vacinal na Europa gira em torno de 40% enquanto que aqui ainda estamos acima de 90%. Isso para Sarampo. Cada vacina tem sua meta e sua cobertura, ok?
Como podemos definir o conceito de vacinação de rebanho?
Como definição: Imunidade de rebanho ou imunidade coletiva é a resistência de um grupo ou população à introdução e disseminação de um agente infeccioso. Isso ocorre quando existir na população uma elevada proporção de pessoas vacinadas. Pessoas imunodeprimidas e gestantes se beneficiam dessa condição, pois não podem receber determinadas vacinas.
Explicando: a vacinação de rebanho é quando conseguimos vacinar uma grande porção da população de forma que os não vacinados acabam ficando protegidos, porque é como se os vacinados fizessem uma barreira impedindo a entrada do agente infeccioso e protegendo aqueles que não estão vacinados. E porque algumas pessoas não estão vacinadas? Bom, as vezes elas não podem receber determinada vacina, como as gestantes e os imunodeprimidos não podem ser vacinados contra sarampo, porque a tríplice viral é uma vacina atenuada, ou seja, feita de vírus vivo enfraquecido. Em pessoas saudáveis a vacina não causa a doença, mas em pessoas com o sistema imunológico deprimido elas poderiam desenvolver a doença.
A meta de cobertura vacinal serve justamente para garantir essa imunidade de rebanho. Se vacinamos 95% da população conseguimos impedir a circulação do vírus do sarampo e dessa forma, os outros 5% estão protegidos por consequência.
Qual a importância da vacinação para um política nacional de saúde?
A importância para política nacional de vacinação é que com a vacinação conseguimos evitar que pessoas adoeçam, morram ou fiquem sequeladas o que gera um ônus altíssimo para o Estado.
Os custos com hospitalização e pessoas sequeladas é muito maior do que investir em vacinação. Além de evitar óbitos o que também tem um efeito muito ruim nos índices de qualidade de vida de um país.
Quais as principais vacinas disponíveis na rede pública e privada?
Hoje o sistema público de saúde oferece vacinas que protegem 19 doenças. São vacinas para todas as faixas etárias, porque vacinação não é só coisa de criança. Existem calendários de vacinação para crianças, adolescentes, adulto e idosos.
O Sistema Público define as vacinas que serão disponibilizadas na rede pública de acordo com a epidemiologa de cada doença, em qual faixa etária ocorre mais, em qual faixa etária é mais perigosa causando hospitalizações e óbitos. Então a vacinação na rede pública pensa na proteção coletiva.
Já a vacinação na rede privada está pensando no indivudal, assim, estão disponíveis todas as vacinas para uma determinada faixa etária. Hoje no Brasil, as diferençpas da rede pública e privada são pequenas. Mas é claro que a proteção na rede privada acaba sendo um pouco mais ampliada.
Vacinas rede pública:
BCG – formas graves de Tuberculose
Hepatite B
Rotavírus: um subtipo ( o mais comum)
Meninogócica C meningites, meningococcemia por essa bactéria
Pneumocócica 10 valente – meningites, pneumonias, otites por essa bactéria
Difteria
Tétano
Coqueluche
Haemophilus tipo B – meningite por essa bactéria
Poliomielite – paralisia infantil
Sarampo
Caxumba
Rubéola
Varicela – catapora
HPV – vírus que causa câncer de colo de útero, pênis, ânus e orofaringe
Pneumocócica 23 valente – para idosos
Influenza – para grupos de risco
Febra Amarela
Vacinas rede privada:
BCG – formas graves de Tuberculose
Hepatite B
Rotavírus: cinco subtipos
Meninogócica ACWY meningites, meningococcemia por essa bactéria
Meningocócica B
Pneumocócica 13 valente – meningites, pneumonias, otites por essa bactéria
Difteria
Tétano
Coqueluche acelular
Haemophilus tipo B – meningite por essa bactéria
Poliomielite – paralisia infantil
Sarampo
Caxumba
Rubéola
Varicela – catapora
HPV – vírus que causa câncer de colo de útero, pênis, ânus e orofaringe
Pneumocócica 23 valente – para grupos de risco
Influenza
Febra Amarela
Dengue
Herpes Zóster
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